Um sábado atípico para os paulistanos, onde as temperaturas registravam 32ºC e ainda assim, centenas de jovens esperavam pacientemente a abertura dos portões. Muitos fãs dos Strokes, headliner do festival, já marcavam seu lugar na fila desde a noite de ontem. Um deles, Gabriel Ichinosi, de 22 anos, era o primeiro da fila, mas após a abertura dos portões (às 13h), acabou se perdendo pelo grande Playcenter, local do festival. Por conta disto, perdeu a oportunidade de conseguir o melhor lugar para ver sua banda favorita. Embora bem sinalizado, a grandiosidade do parque e a multiplicidade de brinquedos, disponíveis gratuitamente para os fãs, atrapalhava um pouco a procura pelos espaços mais concorridos.
Uma grande sacada da organização foi disponibilizar pelo parque algumas máquinas que borrifavam jatos d'água para amenizar o calor intenso que fazia. Enquanto as atrações não subiam ao palco, os brinquedos eram os locais preferidos do público. Enquanto caminhavam pelo parque, via-se muitas pessoas com camisas das bandas Strokes e Oasis. Sim, mesmo que a antiga banda de Liam Gallagher tenha acabado em 2009, os fãs de Oasis depositaram seu carinho no Beady Eye, penúltima banda a tocar no Sonora Main Stage.
As atrações musicais subiram ao palco às 16h. O Claro Indie Stage é o espaço de bandas alternativas (não necessariamente de rock), como The Name, Garotas Suecas (que contou com a participação do dançarino Jacaré, estrela do clipe "Banho de Bucha"), Toro Y Moi (que inclusive saiu do camarim para andar na montanha russa), Gang Gang Dance, Goldfrapp, Bombay Bicycle Club e Groove Armada. Já no Main Stage, quem abriu os trabalhos foi Criolo, grande vencedor do VMB deste ano. O rapper levou três prêmios da MTV Brasil e por conta da visibilidade, teve um público bastante empolgado com suas rimas, ainda que debaixo de sol escaldante. O ápice da apresentação se deu na execução de "Não Existe Amor em SP", seu maior hit, cantada ao lado de Caetano Veloso na premiação da MTV.
A Nação Zumbi entrou no palco ao som de "Mateus Enter" e "Bossa Nostra". De cara, ficou claro que a intenção era entregar um show bastante pesado. Como 'peso' para os pernambucanos nunca é problema, e sim solução, logo de cara conquistaram o grande público que estava ali pelo rock de outras bandas. Era possível ver muitos jovens correndo na direção do palco para acompanhar a performance de perto. Lucio Maia seguia infernal nas guitarras e o vocalista Jorge Du Peixe incitava o público a pular a cargo de hits como "Meu Maracatu Pesa Uma Tonelada" e "Manguetown". Antes de tocar "Maracatu Atômico", uma pitada de insatisfação com o horário selecionado para a Nação tocar, fez com que Du Peixe desse uma leve alfinetada na organização: "Que as bandas nacionais toquem em outros horários, para que o público não precise chegar tão cedo e ficar no sol quente". Após o manifesto, a empolgação dos indies aumentava com "Quando A Maré Encher" e "Da Lama Ao Caos", que teve uma citação de "Umbabarauma", de Jorge Ben Jor. E assim chegou ao fim a apresentação da sempre competente Nação Zumbi.
A primeira banda internacional a aparecer foi o White Lies. Ainda com o dia claro e um belo pôr-do-sol, os londrinos alternaram bons e irregulares momentos. Talvez por conta da falta de força em seu repertório. Com apenas dois discos lançados, o setlist contou com sete canções de "To Lose My Life…" (2009) e outras cinco de "Ritual", lançado este ano. O grupo sentiu dificuldade em prender a atenção do público, que em determinados momentos esboçava alguma reação e em outros, apenas prestava atenção na sonoridade soturna. O vocalista Harry McVeigh mexia com o público, gritando diversas vezes "Hey São Paulo, quero ouvir suas vozes". Porém, nem sempre era atendido. Ainda assim, o público ganhou um elogio quanto à perfeição do inglês cantado (nas poucas músicas reconhecidas). Os momentos de maior agitação do show foram em "Death" (acompanhada de muitas palmas), "Power & Glory" e em "Bigger Than Us", que fechou a apresentação. Uma performance apenas mediana do grupo, que não é tão famoso no Brasil.
O Broken Social Scene pegou muitos de surpresa, que não conheciam o trabalho do supergrupo. A banda é indie, porém alterna momentos dançantes em seu show. Com um público fisgado logo de cara, foi fácil arrancar palmas desde o início da performance, com "World Sick" e "Texico Bitches". Um dos segredos do BSS é a junção de até quatro guitarras e duas baterias em algumas canções, deixando seu som ainda mais grandioso. Em alguns momentos, até megalomaníaco. Mas com o saldo positivo, a performance seguiu animada com músicas como "Cause=Time" e "Stars And Sons". A pouca comunicação com o público não foi problema, uma vez que a música foi posta totalmente em primeiro plano. No máximo, um "obrigado", gentilmente retribuído pela plateia animada. Até o Rage Against The Machine foi lembrado. em citação à "Killing In The Name". Com uma salada de ritmos e sonoridade grandiosa, o BSS saiu ovacionado do palco e pediu ao público para que não os esquecessem. Certamente, será impossível esquecer um dos melhores shows da edição deste ano.
Um dos pontos positivos do evento foi a pontualidade das apresentações. Isso demonstra respeito com o público e servirá de exemplo para muitos outros. A limpeza das áreas comuns é outro fator a ser destacado. Era difícil achar um ponto do parque que estivesse de fato sujo. As opções dos bares ambulantes também foi outra sacada genial. Alguns minipontos físicos espalhados pelo parque, mais os vendedores somaram aos bares efetivos, facilitando a vida de quem não queria se deslocar muito para consumir algo. A praça de alimentação não registrou problemas, ficando assim, a contento de servir bem o público. A organização também espera ter batido o recorde de reciclagem em uma área específica em que o lixo era separado. A questão da sustentabilidade sempre foi uma das marcas do festival. O Planeta Terra 2011 provou que é possível organizar um festival competente, em que todos saiam satisfeitos com o valor investido nos ingressos. Não é à toa que esgotou toda a cota em poucas horas. Que venham as próximas edições.
* Matérias sobre os shows do Interpol, Beady Eye e The Strokes, em notas individuais.
