Em sua segunda vez no Brasil (a primeira foi no extinto festival Hollywood Rock, em 1993), o Alice In Chains não se fez de rogado e encarou a tempestade que desabava desde o show anterior (do Stone Temple Pilots) e fez uma das apresentações memoráveis desta edição do SWU. Com um dos shows mais concorridos, apostaram nos hits que o público queria ouvir e o resultado foi acima da média.
Desde 2005 com o novo vocalista, William DuVall (que substituiu o icônico Layne Staley, morto por overdose em 2002), a banda renasceu e lançou, em 2009, o bom "Black Gives Way To Blue". Porém, o álbum que marcou o setlist da noite foi o clássico "Dirt" (1992), de onde vieram sete das 18 músicas, contando com a trinca inicial: "Them Bones", "Dam That River" e "Rain When I Die". Do último álbum, três faixas foram selecionadas – sendo duas delas na primeira metade do show: o single "Check My Brain" e "Last Of My Kind", que ganharam mais vida no palco do que na própria gravação em estúdio. A performance começou a esquentar a partir de "Down In A Hole". Os fãs aprovavam o desempenho de DuVall à frente da banda, que conseguia emular os tons angustiantes e potentes do antigo vocalista e deixava para brilhar mais intensamente nas canções mais recentes, como em "Acid Bubble".
E provando que grunges também tem coração, "Nutshell", dedicada à Layne e ao primeiro baixista da banda, Mike Starr, morto este ano também por overdose, levou o público às lágrimas. A reta final engrenou a partir de "Angry Chair", elevando a temperatura da noite fria e chuvosa. Com belo desempenho do também vocalista e guitarrista Jerry Cantrell, a banda engatou "Man In The Box", "Rooster", "No Excuses" e fechou a bela apresentação com "Would?". Os 70 mil presentes não arredaram o pé até a última nota, e deixaram boa impressão na banda, que prometeu voltar em breve. "Foi uma das plateias mais bonitas que vimos", bradou DuVall. Já Cantrell ratificou que o Alice In Chains certamente retornará em breve. Serão bem-vindos novamente!
Enquanto o Alice In Chains sai do palco, as 70 mil pessoas tentam chegar no outro palco. Até alcançarem o objetivo, teriam de atravessar córregos de lama e detritos. Muitas reclamações foram ouvidas, enquanto que o idealizador do festival, Eduardo Fischer, confirmava a terceira edição em Paulínia para 2012. "Está confirmado o SWU em 2012, mas não em novembro. Quem sabe em outubro ou setembro, para a gente tentar ter menos chuva", minimizou. Vencida a corrida de obstáculos, lá estava o palco Energia, todo florido, pronto para o último show do festival. Era pouco mais de 1 da manhã quando o Faith No More subiu ao seu terreiro, digo, palco, vestidos de branco dos pés à cabeça, protegidos por diversas guias em seus pescoços. O vocalista Mike Patton mais parecia uma entidade do que um cantor – mas o que interessava era música.
Precedidos pelo poeta pernambucano (e meio malucão) Cacau Gomes, os despachos, digo, os trabalhos foram abertos com a instrumental "Woodpecker From Mars", emendados com a frenética "From Out Of Nowhere", ambas de "The Real Thing" (1989), o álbum que catapultou o FNM ao sucesso.
Embora não tenham apresentado muitas surpresas no setlist, é inevitável ficar de queixo caído quanto à versatilidade da voz de Patton, que abusa da esquizofrenia sonora em "Caffeine" e "Cucko For Caca", passa pelo tipo sedutor de "Evidence" e cai no estilo crooner de "Easy". Sem contar os diversos "porra, caralho", entre outros palavrões impublicáveis. Por sinal, o vocalista consegue dominar a língua portuguesa com uma facilidade invejável. Enquanto a chuva teimava em cair, aumentando o volume de lixo e lama, a banda não poupava esforços no palco e soltou uma versão poderosa de "Surprise! You're Dead!", onde abriu-se algumas rodas de pogo, onde visivelmente alguns metaleiros mais empolgados esborrachavam-se no chão. Por conta do mau tempo, o vocalista soltava algumas frases que provocavam risos generalizados. "E aí? Tudo bem? Não? Ah, é esse tempo de merda".
Enquanto Mike Bordin, Roddy Bottum, Billy Gould e Jon Hudson ditavam o ritmo frenético da apresentação, o endiabrado Mike Patton tomava a câmera das mãos do cinegrafista, tropeçava e caía, mas sem deixar de registrar, ele próprio, a banda enquanto tocava. Chegou a corrigir Bottum, que cumprimentou a plateia com um "boa noite, São Paulo". De bate e pronto, Patton devolveu: "não é São Paulo, é Paulínia", o que arrancou muitos aplausos. O megahit "Epic" e "Just A Man" encerraram o primeiro set. Inclusive, nesta última canção, o Coral de Crianças de Heliópolis subiu ao palco em bela versão. Se despedindo mandando "beijocas", a banda voltou rápido ao palco e tocou, além de uma canção desconhecida e sem nome, a violenta "Digging The Grave" e uma cover de Burt Bacharach, "This Guy's In Love With You". Mas sem motivo aparente, os fogos do festival foram estourados antes da banda ainda tocar "Stripsearch" e "We Care A Lot". Independente do pequeno corte, outro show digno de headliner. E a segunda edição do SWU terminou assim: com um total de 179 mil pessoasnos três dias e muita, muita lama e chuva. O que não impediu o sucesso do festival.


